TRANSTORNADA

Eu era bem pequena, não sei dizer a exatidão cronológica, mas lembro que ainda não era alfabetizada.

Minha mãe estava ajudando-me a vestir uma blusa de mangas compridas, eu lhe contei naquele momento que quando tentava colocar uma roupa e encontrava dificuldade em passar os braços, sentia muita raiva, vontade de rasgar a blusa, de bater a cabeça na parede e chorar. Ela escutou, me ridicularizou e não deu nenhuma importância. E essa foi apenas uma das diversas ocasiões em que isso aconteceu.

A cena que narrei é o instante mais antigo que consigo lembrar, mas eu poderia fazer uma lista imensa das ocasiões em que pedi ajuda aos meus pais e fui ignorada e agredida, devem ter existido mais situações dessas que posso recordar agora, apenas recentemente comecei a lembrar de fatos passados.

Quando minha família se assustou com a minha fúria, empurraram-me para a religião. Foram exaustivos e infindaveis anos entrando e saindo de centros espíritas, buscando resposta nos encostos que me acompanhavam e me faziam ser estranha, e se as sessões de descarrego não estavam funcionando, eu era culpada, pois era médium e não queria desenvolver o dom; quando se deram conta que sequer acreditava naquilo tudo, culparam minha falta de fé.

"Você precisa arrumar uma religião, não importa qual seja, mas todo mundo tem que seguir alguma coisa", esse era o conselho que minha avó sempre (até hoje) repetiu.

Odeio religião. Todas elas. Porque eu senti na pele o quanto pode prejudicar a vida de alguém essa alienação covarde, fiz questão de educar meus filhos sem religião ou deuses e até hoje recebo muitas críticas e condenações por ser ateísta.

Só com dezesseis anos fui levada a uma profissional. Já era tarde demais, e mesmo que houvesse chances para mim, meus cuidadores jamais se dispuseram a participar dos processos terapêuticos, até hoje eles negam-se em reconhecer seus erros e assumir suas responsabilidades; nunca aderi a nenhum tratamento, nunca confiei em ninguém que tentou me atender, nunca fui sincera e nunca acreditei que precisava daquilo.

Recebi o diagnóstico de TPB em 2009, depois de uma das muitas crises que já tive, por um médico agressivamente arrogante, que não ouviu uma palavra minha e foi pouquíssimo acolhedor ou profissional. Na mesma noite recebi um artigo impresso da Wikipedia sobre Borderline. Nunca havia falado nisso e na época não havia tanta informação disponível, lembro que logo no começo li sobre medo da solidão e a partir daí já descartei a possibilidade de credibilidade no diagnóstico, eu nunca me incomodei em ficar sozinha, ao contrário, ainda adorava e buscava a solidão para escrever e fazer coisas que as pessoas gostam de fazer quando estão sozinhas, como cantar na frente do espelho, se masturbar ou brincar de viver em um universo paralelo.

Nesse momento da minha vida, eu estava propensa a aderir algum tratamento. Meu casamento tinha acabado e percebi que tinha feito muitas escolhas baseadas na minha carência afetiva e queria mudar isso, lembro perfeitamente de ter pensado que eu precisava ser mais racional (só não sabia que eu não podia), procurei vários outros psiquiatras em busca de respostas, mas odiava todos sempre. Um dos médicos conquistou minha simpatia e decidi tentar, não tenho ideia do seu nome, mas posso lembrar que ele recordava-me o tio Geraldo; esse psiquiatra me diagnosticou como Bipolar, hoje sei que é um erro comum aos pacientes TPB, e comecei a tomar Lithium e Zolpiden, oficialmente como um desafio, mas com bastante desejo de sucesso. Durou apenas alguns dias.

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM MACHO. TINHA UM MACHO NO MEIO DO CAMINHO.

Paralelamente, eu estava conhecendo uma pessoa e me apaixonei. Dividi a angústia íntima que vivenciava e, em poucas conversas, ele convenceu-me de que eu não deveria tomar remédios pois não era louca: meus pais estavam apelando para a solução mais rápida e covarde, para me marginalizar e absolvê-los, eu não deveria me rotular ou criar dependência com nenhuma medicação.

Eu já pensava essas coisas, e como tive alguém para confirmar meus rancores, logo desisti de tudo. Estava feliz, amar era bom, eu tinha alguém pra cuidar de mim e não precisava de mais ninguém.

Em 2012 aceitei que estava deprimida, mas acreditava que podia curar-me sozinha.

Em 2014 aceitei que não conseguiria sozinha e aderi a um tratamento com antidepressivos e meditação.

A depressão me confundiu, até há algumas semanas atrás eu pensava que era apenas isso que me atrapalhava, não enxergava nenhum outro problema em mim, pensava que eram características da minha personalidade, meu jeito de ser.

Ainda é difícil tentar compreender tudo isso.

Aceitei, mas ainda não compreendi. Não entendo como as outras pessoas funcionam, não sei como elas conseguem, achei que todo mundo era assim também, pois todos têm medos, mágoas e traumas, todos já tiveram acesso de raiva ou ficaram muito tristes; tudo isso é normal, eu pensava.

Quando comecei a estudar sobre o TPB, imediatamente identifiquei-me e me assustei, então fui pesquisar mais a fundo, para me convencer que eu estava delirando, mas tudo que lia só comprovava o meu diagnóstico, vi minhas dores relatadas em depoimentos de outros portadores e senti-me contemplada, e eu nunca havia me sentido assim em nenhum outro grupo que tentei me encaixar, nunca.

A parte científica legitimou minha descoberta, quando entendi que uma parte do meu cérebro não se desenvolveu e não produz suficientemente as substâncias químicas que deveriam, admiti que não consigo fazer coisas que as outras pessoas conseguem, tão simples e banais. Foram os meus sintomas neurológicos que me provararam a verdade, pois eles já me acompanham há muito tempo, mas fiquei perplexa ao me identificar com outros sintomas do TPB, para diagnóstico usa-se o parâmetro de pelo menos 5, de 9 características psicológicas.

Eu tenho todas as 9.

O ano é 2017, estou prestes a completar 32 anos e só agora entendi: tenho transtorno de personalidade borderline.

São Carlos, 2 de maio de 2017

Para meus filhos, com todo meu amor
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