
Desabafos de uma mãe
a quem chamam borderline
Flor de lis
Valei-me, Deus!
É o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei,
Que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força
Pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira,
Poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu.
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu
Por ser mãe
Estava achando que ia morrer.
Não aquele medo filosófico sobre a vida e a morte, que nos dá a sensação de impotência e fragilidade perante ao universo, quando nos lembramos da triste perecibidade humana.
Às vezes eu acho que vou morrer.
Eu tenho é certeza.
Faz todo sentido. Meu coração vai parar. O carro vai bater. Alguém vem aqui me matar. Chegou a hora. Tenho que me despedir dos meninos. Vou morrer hoje ou amanhã, posso sentir, tenho certeza. Vou escrever para os meninos para explicar as coisas, para que eles não sintam-se culpados ou abandonados. Eles precisam saber que eu os amo.
Mas eu tinha muito a escrever.
Quando passei a estudar o TPB, descobri que havia relação genética fortíssima, e que meus filhos tinham 5 vezes mais chances de também desenvolver o transtorno. A preocupação com a saúde e o bem estar deles fez com que eu entendesse que era preciso agir, que era preciso mudar. Eu não podia repetir o mesmo erro de meu pai. Eu não podia deixar os meninos sofrerem tudo aquilo que sofri.
Eu me apeguei a ideia de organizar meus relatos para que as crianças pudessem consultar e conhecer minha história, caso eu morresse jovem e não tivesse tempo para contar-lhes, eu mesma, o peso dos meus fardos.
Pouco me importa a aprovação de outras pessoas, mas a compreensão dos motivos de minhas escolhas pelos meus filhos é essencial para a evolução deles próprios e para que eu cumpra meu papel como pessoa.
Buscar na minha cabeça, as palavras que compõem minha trajetória, fez com que eu buscasse auto compreensão, e as lembranças de tantas feridas permitiram a busca pela minha cura.
Eu finalmente entendi que se não estiver bem, posso acabar os magoando e contribuindo para que eles também sofram com medos ou traumas. Fiz o que meus pais não fizeram, por amor aos meus filhos, aceitei me tratar e me responsabilizar por eles.
Eu escolhi que vou ser a mãe que as crianças lembrarão como alguém que lutou, que melhorou, que escolheu a vida, escolheu cuidar deles; e não como uma vítima sofredora e incompreendida.
Quero ser compreendida.
São Carlos, 30 de abril de 2017
Para Tiquin e Nenê
2017
Eu vou me estender
Sobre qualquer rio de tristeza
Que possa aparecer
E ofuscar sua beleza
Eu vou te proteger
Eu vou me acolchoar
Fazer melhor o meu abraço
Vou te reconfortar
Quando doerem os seus passos
Eu vou te acalentar
Eu vou te recordar
Da força do seu brilho
Do poder da sua mente
Da missão de ser meu filho
Eu vou te fortalecer
Eu vou ficar ao seu lado
Vou comprar a sua briga
Assinar o seu recado
Eu vou ser a sua amiga
Eu vou te respeitar
Mesmo se estiver escuro
E a dor zombar da sua razão
Eu vou ser seu porto seguro
Vou ajudar na sua lição
Eu vou guiar seu ser
Quando sentir-se sozinho
Pedir não será preciso
Eu vou ser o seu ninho
Vou lutar pelo seu riso
Eu vou sempre te amar