A psicóloga
Antes de sair de casa, eu me comprometi a confiar na terapeuta, mesmo sem saber quem era ela; tinha certeza que iria odiá-la e achar que ela não sabia nada sobre mim e que eu nem deveria escutá-la, foi assim com todos.
Tento ajuda com psicoterapia desde os dezesseis anos, mas minha família nunca aderiu, se informou ou se comprometeu com meu tratamento, e sempre foi em vão e patético, porque, consequentemente, eu sempre encarei com deboche e sarcasmo qualquer profissional que tentou me atender: inventando histórias, escondendo verdades, atuando, sempre atuando.
Consegui ser sincera em meu primeiro encontro, contei sobre meu diagnóstico, sobre minha dor, ela me ouviu e pareceu me entender.
Tive a impressão que ela era uma idiota, provavelmente é mais nova que eu, não deve ser mãe, deve ser de família de classe média. Ela nunca vai me entender.
Como eu estava com meu companheiro, enquanto ele falava, consegui lembrar dos motivos que me levaram até ali, "Vou confiar nela", lembrei-me de como eu me senti contemplada com os relatos de outros pacientes borderline, fiz questão de lembrar dessa sensação, porque eu nunca havia me sentido assim, todos diziam que a psicoterapia é muito importante, eu mesma cheguei a essa conclusão, devido aos benefícios que vivenciei de autoconhecimento, "Ela estudou, sabe o que faz, confie nela".
Eu consegui, eu confiei.
Para me ajudar, meu companehiro também vai fazer acompanhamento psicológico, com uma profissional diferente; além de precisar de apoio para cuidar de mim, ele tem seus próprios traumas e confusões, vai aproveitar para se cuidar também.
Eu escrevi para as psicólogas dos meus filhos, para contar-lhes sobre minha recente aceitação de diagnóstico e adesão ao tratamento, para que elas me ajudem a lidar tanto com a possibilidade de um deles desenvolver o transtorno, tanto para que eles entendam minhas limitações e desvios; eu não esperava grande receptividade delas, porque imagino que elas tenham uma visão muito distorcida de mim, julgando-me perigosa, porque as informções que receberam sobre minha pessoa são provenientes daqueles que me odeiam, que esforçam-se para denegrir minha imagem, meus valores; mas fiquei bastante decepcionada com a falta de interesse delas na minha tentativa de aproximação, ao que parece o preconceito machista, elitista e homofóbico foi maior que um sincero pedido de ajuda, ambas foram frias e desinteressadas.
Quando eu estiver com a guarda deles novamente, a primeira coisa que pretendo fazer é procurar atendimento psicológico para meus bebês, tanto para ajudá-los a me entender, quanto para ajudar a eles mesmos, principalmente o mais novo, que estou quase certa que herdou o gene BORDERLINE.
Se meu vô e meu pai não conseguiram, eu vou conseguir! Vou me tratar e cuidar do meu filho, e juntos venceremos essa maldição de família
São Carlos, 24 de maio de 2017
