Pedindo ajuda

Começar a lembrar do que houve comigo, e aceitar que realmente aconteceu foi o gatilho para que eu conseguisse entender que tinha um problema, tive que admitir que havia acontecido para começar a admitir que tinha me afetado.

Como não poderia? Eu só tinha três anos de idade.

Ainda não consegui me lembrar dos detalhes, é doloroso e eu tento afastar os pensamentos, também tenho recordado outras situações tão cruéis e devastadoras quanto à primeira, é muita coisa e todas me assustam demais.

Estou enfurecida, sinto muita (muita,muita) raiva e meus pensamentos estão hiperativados, confusos e bastantes dolorosos. Tenho esses sintomas neurológicos há muito tempo: quando penso muito rápido (ou penso muito) minha cabeça chacoalha, tenho zumbido e vertigem, sinto pequenos estalos e choques elétricos dentro da cabeça; na verdade, essas coisas acontecem sempre, mas quando fico com os pensamentos assim, elas pioram muito; alguns outros sintomas intensificam-se quando estou calma, por incrível que pareça, e tem algumas coisas que ocorrem todo o tempo, naturalmente, arrisco dizer. Sei que é psicológico, mas não consigo parar, nem agora, consciente e resignada. Talvez seja meu corpo tentando me lembrar que não há tempo a perder, dessa vez eu o ouvi.

Tive uma franca conversa com meu companheiro, ele é uma pessoa muito corajosa, doce e sensível, sempre fomos amigos e confidentes, conversamos sobre nossos medos, traumas e segredos e temos ajudado um ao outro na busca de autoconhecimento e evolução, ele me acompanhou e participou de muito desse complexo processo de cura de cegueira, e, assim como eu, também tem encontrado respostas. Tamanha a importância e seriedade que estamos vivenciando esse momento, decidimos ambos nos aconselhar com psicoterapia.

Estou aguardando a consulta para começar a planejar meu processo terapêutico, que envolverá psiquiatria, atividade física e meditação provavelmente.

Obviamente ansiosíssima, fico elaborando mentalmente os desafios que terei que superar. Vou ter que perdoar? Eu não perdoar. Vou ter que pedir perdão? Não vou pedir perdão nem por tortura! Vou ter que lembrar? Eu não quero lembrar! Lembrar dói muito. Vou ter que esquecer? Como?

Eu passei minha vida inteira esforçando-me noite após noite para esquecer, fui eu que fiz isso com minha memória, eu sei, fiz de propósito, eu treinei meu cérebro para esquecer, e teve um (zilhão) motivo para isso. Doía. Dói.

Estou curiosa em como funciona a terapia.

São Carlos, 11 de maio de 2017

Para meus filhos, com todo meu amor
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