Religião e Espiritualidade
Desde que eu era bem pequena, vejo, escuto e sinto o mundo de um jeito diferente da maioria das pessoas.
Hoje eu sei que são sintomas neurológicos do meu transtorno de personalidade, mas durante muito tempo foi um grande mistério e problema. Ao invés da minha família me levar a algum profissional de saúde, eles me levaram para Centros Espíritas. Foi a infância e adolescência entrando e saindo de diversos Centros Kardecistas e Umbandistas. Meus pais diziam que eu tinha espíritos possessores que me acompanhavam, então eles me levavam para fazer trabalhos espirituais de limpeza; depois disseram que eu era médium e precisava desenvolver o meu dom para que os espíritos parassem de me atormentar, como eu nunca desenvolvi minha mediunidade e minha fé, fui condenada a essa vida perturbada.
Minha família preferiu atuar em uma fantasia espiritual a cuidar de mim, a assumir os erros que cometiam. Eu perdi as contas de quantas vezes tive presenciar meu pai ou minha mãe "incorporando" espíritos, geralmente depois de bastante álcool.
Estudei os primeiros anos em uma escola católica e minha avó materna é muito católica também, então acabei recebendo uma educação cristã, cheguei até a fazer a primeira comunhão; mas nunca acreditei em nada do que ouvia, a vida sempre pareceu-me muito injusta e nunca consegui me conformar em aceitar o sofrimento.
Ao longo da vida, perdi grandes amigos para a religião. Pessoas com quem eu muito já havia trocado filosofias e hoje são desconhecidos para mim, não me conformo que eles tenham se entregado a qualquer doutrina, sinto-me traída, e, principalmente, não acredito neles.
Eu não acredito em ninguém que fala de religião, não acredito que alguém possa realmente acreditar em tantas baboseiras, eu acho que estão todos fingindo, assustados e fingindo crer em algo, porque eles querem que seja verdade, torcem pra ser verdade, mas não acreditam de verdade. Eu duvido. Ninguém pode ser tão ingênuo assim, só têm medo de encarar a verdade da vida, a frieza e a dor, então preferem crer que há um ser superior que os está protegendo e que a tristeza fará sentido depois da morte. Querem competir por quem sofre mais, como se esse fosse o mérito para ser digno de um paraíso. Isso pra mim é covardia.
Minha avó diz "Todo mundo precisa de uma religião, não importa qual seja, mas todo mundo tem que acreditar em alguma coisa", e o lema dela é a tradução perfeita da covardia que está por traz das orações. Ela também diz "Ruim com ele, pior sem ele", e a outra diz "Bom era no tempo da ditadura", ou seja, não dá mesmo para confiar nos conselhos da minha família...
Atualmente me considero uma pessoa ateísta, porém acredito muito em energia, em interconexão universal, creio que todos estamos unidos e que nós, humanos, pouco sabemos sobre o universo. Sou fã de Einstein e de Dalai Lama.
Tenho estudado o Budismo desde que comecei meu tratamento e sinto-me satisfeita, não trata-se de uma religião porém conforta minha alma.
São Carlos, 31 de Maio de 2017
